Caminho, logo sou

Emília Ferreira, 2015

 

A exposição da Gallery do Pátio, que abre o ciclo anual da Casa da Cerca dedicada ao tema da viagem, apresenta-nos um desafio que parte de três elementos: uma pedra, um mapa e um filme. Marco inicial, desenho de projecto, a pedra e o mapa funcionam como indícios que o filme revelará, incitando-nos à nossa própria descoberta.

Narrativa evocadora da viagem essencial, “Monólito”, de Pedro Vaz, é o resultado de um encantamento (ou uma invocação) pela pedra, pelo uno, pelo caminho como processo artístico (de que o mapa é também símbolo), da libertação para a elevação, conduzindo à criação.

Demoremo-nos na estória que se desenrola à nossa frente. Na noite primordial, perturbada pela faísca do fogo que aquece e protege, revela-se um homem. Na manhã seguinte, esse homem inicia o seu percurso, despojando-se do artifício e regressando à Natureza.

Vemos a partida através da ruína de uma janela. Registo duplamente simbólico da artificialização — a janela, como incipiente registo paisagístico, e a ruína, metáfora que não carece de qualquer explicação extra —, o homem obedece, a partir de agora, apenas aos elementos.

Acompanhando um curso de água, como a linha de uma escrita pré-determinada da paisagem, este vídeo — parte obra documental, parte ficção — permite-nos testemunhar o itinerário de uma personagem (um alter ego a que o autor se refere como “ele”) na sua deambulação metafórica.

Ao longo de vários dias, o homem erra pelos caminhos. Seguindo os seus passos, ouvindo o que ele ouve e pisa, percebendo o que ele vê, reconhecemos a sua solidão. O seu ritmo é o do mundo físico. O seu tempo distancia-se do artificial cronos urbano, sendo antes marcado pela alternância de dias e noites e pela cadência dos seus passos. O filme convida assim à contemplação, a um modo silencioso e demorado de ver.

Observamo-lo. Caminha, pára, retempera-se, limpa-se, alimenta-se, abriga-se, dorme. Se o sono é duplo da morte, despertar é renascer. A sequente descoberta de um espelho, significativamente encontrado dentro de água, duplicando os seus poderes de reflexão, e os sentidos do reflectir, relança-nos no mistério da vida, da consciência e da representação. Sendo um possível meio de auto-conhecimento, um domador do visível, enquadrando-o e apropriando-o, o espelho — doravante mais constante na narrativa — é a um tempo o acesso e a interdição da passagem para o outro, marcando a cisão entre o real e o que dele fazemos através do olhar e dos nossos percursos imaginados.

Tal como a personagem do filme, Pedro Vaz é um caminhante. A sua pintura, síntese estética do mundo, regista paisagens falsamente miméticas, que mantêm intactas as sensações captadas pela prática peripatética do autor. O registo que evoca ramagens, o emaranhado de folhas tecido de luz e sombras, desperta em nós recordações de passeios por lugares semelhantes. A abstracção amplia o onirismo, tanto na pintura como neste registo fílmico, com a sua fotografia a preto e branco, evocadora da tinta-da-china do desenho.

Como sempre acontece na obra de Pedro Vaz, os locais pintados, fotografados ou, neste caso, filmados, não são fortuitos. Registam um itinerário interior, conquista de obstáculos pessoais através da sucessão de passos com que o artista transpõe distâncias para tecer o seu processo gnoseológico (do conhecimento) e estético (dos sentidos). Tal é o caso de Tour du Mont Blanc. Ou de Monólito, percurso traçado sobre um trajecto que o pintor tem percorrido com frequência ao longo dos últimos dez anos. A paisagem é uma perspectiva e, nesse sentido, um topos pessoal; quer dizer, um modo de contar a parte que nos cabe a ver, porque jamais vemos tudo o que há, já que o nosso olhar exclui a maior parte do visível, centrando-se nas linhas da sua íntima construção imagética.

Formalmente, a voluntária ausência de realismo — a opção pela sugestão — liberta-nos para a percepção personalizada, provocação estética da nossa imaginação. A captação directa do som, sem adição nem edição de efeitos (exceptuando a parte final do filme), transporta-nos também para a intimidade deste percurso. Faíscas, fogo, vento, trovoada, chuva, pios de rapinas e danças de ramagens, passos, cascalho, água corrente, tudo se mistura ao corpo que atravessa a paisagem e às árvores, à cinza, ao ar que tudo move, resultando na ampliação do sentido da sua própria respiração. O corpo que desenha o percurso torna-se parte do percurso. A sua respiração é também a nossa.

Classicamente perdido para se reencontrar, o caminhante, já com os pés nus sobre o solo, depara-se com uma gruta (em tempos, um santuário fenício), na qual entra para descobrir um objecto indeterminado. Viagem terminada ou início de nova navegação? Que descobrirá esse homem nesse objecto desconhecido? Para o sabermos, teremos também nós de operar a nossa própria viagem. E assim a exposição convida à descoberta do Monólito, entre as árvores da Mata. Que descobriremos?

Mais do que o mundo, Pedro Vaz relembra-nos que a criação resulta do encontro da experiência e síntese racional do existente com o imaginado. Entre a pedra que cabe na palma da mão e um monólito com dimensões generosas, em sugestão de nave espacial, a diferença reside sempre no sujeito que olha e cria a viagem.

Por isso, caminhar é muito mais do que uma mera possibilidade de ver. É sobretudo darmo-nos a possibilidade de ser. É ouvir a respiração do mundo, sentir a sua pele, ver as suas pregas, apercebermo-nos das dificuldades e encantamentos do trajecto. Surpreendermo-nos. Com o que nos assusta e também com a beleza. Para, a cada descoberta, constatar que o mistério do todo, incluindo a capacidade de criar, permanece intacto nas nossas mãos.

 

 

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